Quando não confiar na IA sobre os sintomas do seu filho
Em resumo: não pergunte à IA quando a criança tem um sinal de perigo — vá directamente à unidade sanitária. Os chatbots não examinam a criança, não vêem como respira nem a cor da pele, inventam coisas com toda a confiança e foram treinados sobretudo com dados de países onde quase não há malária nem tuberculose. Desconfie de qualquer resposta que dê doses exactas, diga que «não é preciso ir ao médico» ou recomende um produto.
Não abra o chat. Vá já à unidade sanitária se a criança:
- não consegue beber nem mamar, ou vomita tudo o que come ou bebe;
- teve convulsões (ataques);
- está muito mole, sonolenta ou difícil de acordar;
- respira muito depressa, com o peito a afundar, ou faz um som ao respirar;
- tem menos de 2 meses e tem febre ou está fria ao toque;
- tem febre e vive ou esteve numa zona de malária (em Moçambique, praticamente todo o país);
- tem lábios ou língua arroxeados, ou está muito pálida.
Lista completa: sinais de perigo — quando ir ao hospital.
Quando saltar o chatbot
A IA pode ajudar a perceber uma situação calma: uma dúvida sobre os dentes a nascer, uma explicação do que o enfermeiro disse, uma lista de perguntas para a próxima consulta. Não é para decidir se uma criança doente pode esperar.
Os sinais de perigo da caixa acima são os que a OMS ensina aos profissionais de saúde na AIDI (Atenção Integrada às Doenças da Infância). Qualquer um deles significa doença grave até prova em contrário. Nesses casos, cada minuto a escrever no telefone é um minuto a menos de tratamento. Escreva depois, se quiser, na fila.
Também deve saltar a IA quando:
- o seu instinto diz que algo está muito mal, mesmo sem saber explicar;
- a criança piorou depois de ter sido vista;
- a febre dura mais de 2 dias, ou a diarreia vem com sangue;
- a criança engoliu um medicamento, produto de limpeza ou petróleo;
- houve uma queda forte, queimadura ou mordedura de animal.
O que a IA não consegue fazer
Não examina a criança
Um profissional de saúde conta as respirações por minuto, olha para o peito, belisca a pele da barriga para ver a desidratação, vê a cor das palmas das mãos e das gengivas, apalpa a barriga, ouve os pulmões. Faz o teste rápido da malária. Nada disto passa por um texto. A IA só sabe o que lhe escreve — e os pais, compreensivelmente, nem sempre sabem o que é importante dizer.
Não vê a respiração nem a cor
Muitos dos sinais mais graves são visuais: o peito que afunda, as narinas que abrem, os lábios arroxeados, a palidez da anemia grave. Mesmo que envie uma fotografia, uma imagem parada não mostra a respiração, e a cor muda com a luz e o ecrã.
Inventa — e com confiança
Os modelos de linguagem geram o texto que parece mais provável, não o que é verdade. Por isso às vezes inventam («alucinam») factos, estudos ou recomendações, e escrevem o erro no mesmo tom seguro do acerto. A OMS, na sua orientação de 2024 sobre estes modelos na saúde, avisa que podem produzir afirmações falsas, imprecisas, enviesadas ou incompletas, e que as pessoas tendem a confiar demais na máquina («viés de automação»).
Conhece mal o nosso contexto
Grande parte dos dados de treino vem de países ricos, onde uma febre numa criança raramente é malária e a tuberculose é rara. Em Moçambique, malária é uma das primeiras coisas a excluir numa criança com febre, e a tuberculose deve ser lembrada numa tosse que dura semanas. O estudo AfriMed-QA, que testou 30 modelos com perguntas de escolas de medicina de 16 países africanos, encontrou desempenho muito variável entre especialidades e regiões, e pior do que nos exames de medicina dos Estados Unidos. Se a IA falar de «virose» sem perguntar onde vive, falta-lhe o essencial.
O que diz a investigação
Os resultados dos testes de IA na saúde são muitas vezes apresentados como impressionantes. Olhando com cuidado, o quadro é mais modesto:
| Estudo | O que testou | O que encontrou |
|---|---|---|
| Barile et al., JAMA Pediatrics, 2024 | ChatGPT (versão 3.5) em 100 casos clínicos de crianças | Acertou o diagnóstico em 17. Errou em 72 e foi vago demais em 11. |
| Bean et al., Nature Medicine, 2026 (Oxford) | 1298 adultos com 10 cenários, a usar GPT-4o, Llama 3 ou Command R+ | Sozinhos, os modelos acertavam muito. Com pessoas reais, menos de 35% chegavam à condição certa e menos de 45% à decisão certa — não melhor do que sem IA. |
| AfriMed-QA, ACL 2025 | 30 modelos com 15 000 perguntas de 16 países africanos | Grande variação entre especialidades e regiões; abaixo do nível dos exames norte-americanos. |
Os modelos estão a melhorar, e o estudo pediátrico usou uma versão antiga. Mas o estudo de Oxford mostra o ponto principal: mesmo um modelo que «sabe» a resposta falha quando a conversa é com um pai ou uma mãe preocupados — as respostas misturavam bons e maus conselhos, e mudavam com pequenas diferenças na forma de escrever. Os autores concluem que estes sistemas têm de ser testados com utilizadores reais antes de chegarem ao público.
Sinais de alarme numa resposta da IA
Se a resposta tiver alguma destas coisas, pare e fale com um profissional de saúde:
- Doses exactas («dê 5 ml de...», «120 mg de 6 em 6 horas»). A dose depende do peso, da apresentação do medicamento e de outras condições. Use só a que o profissional receitou ou a do folheto.
- «Não é preciso ir ao médico» ou «é só uma virose». A IA não tem como garantir isso sem examinar a criança e sem um teste de malária.
- Recomendação de produtos ou marcas, suplementos, chás «milagrosos» ou lojas. Saúde não é publicidade.
- Remédios caseiros perigosos: álcool ou petróleo na pele para baixar a febre, mel antes de 1 ano, aspirina em crianças, purgantes na diarreia.
- Um diagnóstico certo e único, sem alternativas nem dúvidas.
- Estudos ou fontes que não consegue encontrar. Se a IA cita um artigo, procure-o. Se não existe, a resposta inteira fica suspeita.
- Conselhos que contradizem o Cartão de Saúde da Criança ou o que lhe disseram na unidade sanitária. O profissional viu a criança; a IA não.
- Não perguntou a idade, o peso nem onde vive. Respondeu sem saber o básico.
Então, a IA não serve para nada?
Serve, com limites. Pode ajudar a perceber termos médicos, a organizar a história da doença, a preparar perguntas para a consulta e a lembrar o que vigiar em casa depois de a criança ser vista. Veja como perguntar à IA e preparar a consulta com IA.
A regra prática: a IA pode ajudar a fazer perguntas melhores; quem dá as respostas sobre o seu filho é o profissional de saúde que o examina.
Em poucas palavras
- Sinal de perigo, febre em zona de malária ou bebé com menos de 2 meses doente: unidade sanitária, não chatbot.
- A IA não examina, não vê a respiração nem a cor, e pode inventar com confiança.
- Os estudos mostram que, nas mãos de pessoas comuns, os chatbots não ajudam a decidir melhor.
- Desconfie de doses, de «não precisa de médico» e de produtos recomendados.
- Em dúvida, vá. Ninguém na unidade sanitária vai achar que exagerou.
Fontes
- WHO releases AI ethics and governance guidance for large multi-modal models — OMS / WHO
- Ethics and governance of artificial intelligence for health: Guidance on large multi-modal models — OMS / WHO
- Diagnostic Accuracy of a Large Language Model in Pediatric Case Studies (Barile et al., 2024) — JAMA Pediatrics
- Reliability of LLMs as medical assistants for the general public: a randomized preregistered study (Bean et al., Nature Medicine, 2026) — Universidade de Oxford
- AfriMed-QA: A Pan-African, Multi-Specialty, Medical Question-Answering Benchmark Dataset (ACL 2025) — ACL Anthology
- Integrated Management of Childhood Illness (IMCI) — módulos e Chart Booklet — OMS / WHO
Este artigo é informação geral, escrita pela equipa da Iasora a partir das fontes acima. Não substitui a consulta, nem o juízo de um profissional de saúde que vê a criança. Na dúvida, vá à unidade sanitária mais próxima.