Antes de colar o registo do seu filho no ChatGPT, leia isto
Em resumo: um chatbot público recebe tudo o que lá colar — o nome da criança, a data de nascimento, o número do cartão de saúde, a cara na fotografia. Conforme as definições, essa conversa pode ser lida por revisores humanos e usada para treinar modelos. Antes de perguntar, tire os dados que identificam a criança, desligue o treino nas definições e use o modo temporário. A pergunta responde-se igualmente bem sem o nome.
O gesto que toda a gente faz
São 22h, a criança tem febre, e o cartão de saúde está em cima da mesa. Tira-se uma fotografia, cola-se no ChatGPT ou no Gemini e escreve-se «isto está bem?». É rápido, e a resposta muitas vezes ajuda.
Mas aquela fotografia leva muito mais do que a pergunta precisa: o nome completo da criança, a data de nascimento, o nome da mãe, a unidade sanitária, por vezes o número do processo. Um relatório de análises leva ainda o nome do laboratório e do médico. Nada disso torna a resposta melhor.
O que acontece a essa conversa
Depende do serviço e das definições da sua conta, mas há três coisas que vale a pena saber:
- Pode ser lida por pessoas. A Google diz no seu centro de privacidade do Gemini que revisores humanos, incluindo de empresas contratadas, leem uma parte das conversas, e que as conversas revistas ficam guardadas até três anos. Pede, com todas as letras, que não escreva nada confidencial que não queira que um revisor veja.
- Pode servir para treinar modelos. Nas versões gratuitas e pessoais destes serviços, o uso das conversas para melhorar os modelos depende de uma definição. Na Anthropic (Claude) chama-se «Model Improvement»; no ChatGPT está nos controlos de dados; no Gemini, na actividade das apps.
- Fica no histórico. Quem pega no seu telemóvel, ou entra na sua conta, vê a conversa.
Isto não quer dizer que não deva usar IA. Quer dizer que deve escolher o que lhe dá.
O que tirar antes de perguntar
Antes de colar, apague ou tape:
• O nome da criança e o seu (escreva «a minha filha», «a mãe»).
• A data de nascimento — basta a idade: «8 meses».
• Números do cartão de saúde, do processo, do BI, do seguro.
• A cara da criança, e qualquer fotografia que mostre a escola ou a casa.
• Nomes de médicos, unidades sanitárias e moradas.
Numa fotografia de um documento, tape esses campos antes de tirar a foto, ou corte a imagem. Muitas vezes nem é preciso a fotografia: escrever «hemoglobina 9,8 g/dL, criança de 2 anos» dá à IA tudo o que precisa.
Três definições que valem cinco minutos
- Desligue o treino. Procure nas definições a opção de usar as suas conversas para melhorar o modelo e desligue-a.
- Use o modo temporário ou anónimo para perguntas de saúde. A Anthropic diz que as conversas em modo anónimo nunca são usadas para melhorar os modelos, mesmo com a outra opção ligada.
- Apague a conversa quando já não precisar dela.
Como a Iasora faz diferente — e onde não é diferente
A Iasora tem um assistente, o HealthAI, que responde a perguntas sobre o registo da sua criança. Também ele envia esse registo a um fornecedor de IA (Anthropic ou OpenAI). A diferença está no que vai e em como vai:
| Chatbot público | HealthAI da Iasora | |
|---|---|---|
| Nome da criança | Vai, se o escrever ou colar | Trocado por «o paciente», também dentro das notas de um clínico |
| O seu nome | Vai, se estiver no texto | Trocado por «o encarregado» |
| Telefones e emails | Vão, se estiverem no texto | Nunca saem |
| Data de nascimento | Vai, se a escrever ou estiver na fotografia | Não sai: vai a idade, e a data é apagada até de dentro das notas |
| Número do cartão de saúde | Vai, se o escrever ou estiver na fotografia | Não sai, nem quando está escrito numa nota |
| Autorização | Usar o serviço é aceitar os termos dele | Pedida de forma explícita, por criança, e pode retirá-la quando quiser |
| Treino de modelos | Depende das suas definições | É usada a API dos fornecedores, que por omissão não treina com os dados enviados |
E o que não muda, porque prometer anonimato seria mentir: a idade, o sexo, as datas em que as coisas aconteceram e o resto do registo seguem como estão, porque são esses factos que permitem uma resposta útil. Quando pede ao HealthAI para ler a fotografia de um documento, a imagem segue inteira — se o nome estiver impresso, vai com ela. A regra do tapar acima vale também aqui.
O HealthAI não é um dispositivo médico e não diagnostica. Quando falta um dado, diz qual; quando algo soa urgente, diz para procurar cuidados.
A regra que nunca muda
Nenhuma IA — pública ou dentro de uma app — vê a criança respirar, nem lhe toca na barriga. Se houver sinais de perigo, não pergunte: vá. Veja os sinais de perigo e quando ir ao hospital, e quando não confiar na IA.
A Organização Mundial da Saúde, nas suas orientações sobre IA na saúde, põe a protecção da privacidade e a autonomia das pessoas entre os primeiros princípios. Para uma família, isso traduz-se numa coisa simples: a IA pode ajudar, mas é quem cuida da criança que decide o que ela fica a saber.
Fontes
- Gemini Apps Privacy Hub — Google
- Is my data used for model training? (consumidor) — Anthropic
- Is my data used for model training? (produtos comerciais e API) — Anthropic
- Business data privacy, security, and compliance — OpenAI
- Ethics and governance of artificial intelligence for health — OMS
Este artigo é informação geral, escrita pela equipa da Iasora a partir das fontes acima. Não substitui a consulta, nem o juízo de um profissional de saúde que vê a criança. Na dúvida, vá à unidade sanitária mais próxima.