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Dados de saúde do seu filho e IA: o que apagar antes de perguntar

Actualizado a 11 de Outubro de 2026 · 7 min de leitura

Um documento de saúde com o nome riscado, um telemóvel com um escudo e um cadeado, e um pai com a filha ao lado.

Em resumo: o que escreve num chatbot público pode ficar guardado, ser lido por revisores humanos e, conforme as definições, servir para treinar o modelo. Para perguntar sobre a saúde do seu filho não precisa do nome, do número do BI, da escola nem de fotografias com a cara. Apague isso, desligue o treino nas definições e, numa app de saúde, pergunte quem recebe os dados e como os apaga.

O que acontece quando cola a saúde do seu filho num chatbot

Quando escreve «a minha filha Ana, 3 anos, da escolinha X, tem febre de 39 desde ontem», essa frase sai do seu telemóvel e vai para os servidores da empresa do chatbot. A partir daí, depende das regras dessa empresa e das definições que escolheu.

Três coisas que convém saber:

  • Pode ficar guardado. As conversas costumam ficar no histórico da sua conta. A Google, por exemplo, diz que a actividade do Gemini se apaga por defeito ao fim de 18 meses, e que mesmo com a actividade desligada as conversas ficam 72 horas.
  • Pode ser lido por pessoas. A Google explica que uma parte das conversas é revista por revisores humanos, desligada da conta, e que essas conversas revistas ficam até três anos. A própria Google pede para não escrever informação confidencial que não quisesse que um revisor visse.
  • Pode servir para treinar o modelo. Depende do serviço e da definição. No Gemini, com a actividade ligada, as conversas podem ser usadas para melhorar os serviços, incluindo treinar modelos. No Claude, da Anthropic, as conversas só entram no treino se ligar a opção «Model Improvement» (ou se forem marcadas numa revisão de segurança, ou se der um polegar para cima ou para baixo).

Isto não quer dizer que não deva usar a IA. Quer dizer que deve dar-lhe o que ela precisa para responder e nada mais.

O que apagar antes de perguntar à IA

Para a IA explicar o que é uma febre de 39 °C numa criança de 3 anos, a idade e os sintomas chegam. O resto só a identifica.

ApagueEscreva antes
Nome e apelido da criança«a minha filha», «um menino de 18 meses»
Número do BI, NUIT, número de processo do hospitalNada. A IA não precisa.
Data de nascimento completaA idade: «3 anos», «7 meses»
Escola, creche, bairro, moradaSó o que conta para a saúde: «vivemos numa zona com malária»
Nome do médico, da unidade sanitária, de familiares«o clínico», «a avó»
Telefone e emailNada.

Fotografias: o maior risco

Uma foto de uma mancha na pele pode ajudar a descrever o problema. Mas uma foto mostra muito mais do que a mancha.

  • Fotografe só a zona, de perto. Sem a cara, sem o uniforme da escola, sem fundo reconhecível.
  • Não envie fotografias do Cartão de Saúde da Criança, de receitas ou de análises com o nome à vista. Se precisa de ajuda com uma palavra da receita, escreva a palavra em vez de mandar a foto. Se tiver mesmo de enviar, tape o nome, o número de processo e a data de nascimento antes.
  • Nunca envie fotografias da criança despida a um chatbot. Mostre-as ao clínico, na consulta.

Um teste rápido antes de carregar em enviar: se este texto aparecesse num grupo de WhatsApp de desconhecidos, alguém conseguiria saber de que criança se trata? Se sim, corte mais.

Que definições mudar no chatbot

Os nomes mudam de serviço para serviço e de actualização para actualização. Procure nas definições, em «privacidade» ou «controlo de dados», estas três coisas:

  1. Treino do modelo. Uma opção do tipo «melhorar o modelo» ou «usar as conversas para treino». Desligue-a para conversas sobre saúde.
  2. Histórico ou actividade. Quanto tempo as conversas ficam guardadas e como as apagar. No Gemini chama-se «Keep Activity» e pode escolher apagar ao fim de 3, 18 ou 36 meses.
  3. Conversa temporária ou anónima. Muitos serviços têm um modo que não fica no histórico. No Claude, o modo incógnito nunca é usado para treino; no Gemini, as conversas temporárias não são revistas por pessoas para melhorar a IA, mas ficam 72 horas.

Lembre-se: apagar o histórico não apaga tudo. A Google avisa que as conversas já revistas por pessoas ficam até três anos, mesmo que as apague da conta.

Que perguntas fazer a uma app de saúde com IA

Uma app feita para guardar a saúde da família deve responder a estas perguntas de forma clara, antes de pedir os dados do seu filho:

  1. Pede o meu consentimento? Para cada criança, e posso retirá-lo depois?
  2. Quem é o fornecedor da IA? A app usa um modelo próprio ou envia os dados para outra empresa? Qual?
  3. O que é retirado antes de os dados saírem? O nome? O telefone? E o que vai tal como está? Desconfie de quem diz «totalmente anónimo» sem explicar como.
  4. Posso apagar tudo? Os registos da criança, as conversas, a conta.
  5. Posso levar os meus dados? Exportar o histórico, para o ter noutro sítio ou mostrar a outro clínico.
  6. Quem mais vê os dados? Se partilhar com um clínico, consigo escolher o que ele vê e por quanto tempo?

Um exemplo de respostas honestas: na Iasora, a HealthAI responde a perguntas sobre o registo desta criança e só funciona depois de dar consentimento para essa criança, que pode retirar. Antes de o registo ir para o fornecedor de IA (Anthropic ou OpenAI), o nome da criança passa a «o paciente» e o do encarregado a «o encarregado», até dentro das notas do clínico; telefones, emails, a data de nascimento e o número do cartão de saúde não saem (vai a idade). Mas não é anónimo: as datas dos acontecimentos e o resto do registo vão como estão, e a fotografia de um documento que lhe peça para ler segue inteira. A HealthAI diz que facto falta para responder, manda procurar cuidados quando algo parece urgente, não é um dispositivo médico e não faz diagnósticos.

O que diz a lei em Moçambique

Pelo que conseguimos verificar até Outubro de 2026, Moçambique ainda não tem uma lei própria de protecção de dados pessoais em vigor. O Conselho de Ministros aprovou em Março de 2026 uma proposta de lei, que cria pela primeira vez um regime de protecção de dados e que seguiu para a Assembleia da República. Se entretanto for aprovada, será publicada no Boletim da República; vale a pena confirmar lá.

Até lá, a base principal é a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais (Convenção de Malabo), ratificada por Moçambique pela Resolução n.º 5/2019.

Na prática, isto significa que a sua melhor protecção é a que controla: o que escreve, o que fotografa e as definições que escolhe. E muitos chatbots são de empresas estrangeiras, com regras escritas noutros países.

O que dizem a OMS e a UNICEF

A OMS publicou em 2021 seis princípios para a IA na saúde. O primeiro, proteger a autonomia, diz que a privacidade e a confidencialidade devem ser protegidas e que o doente deve dar um consentimento informado válido. Numa criança, quem consente é o pai, a mãe ou o encarregado.

A UNICEF, na versão 3.0 das orientações sobre IA e crianças (Dezembro de 2025), põe «proteger os dados e a privacidade das crianças» entre os requisitos de uma IA feita a pensar nelas. Uma criança de hoje vai viver com os dados que alguém escreveu sobre ela.

A IA não substitui a consulta

Proteger os dados é metade do cuidado. A outra metade é saber quando parar de escrever e ir à unidade sanitária. Se o seu filho tem um sinal de perigo, não perca tempo com o chatbot: veja os sinais de perigo e quando ir ao hospital.

Para usar bem a IA no dia-a-dia, leia também como perguntar à IA sobre a saúde do seu filho e quando não confiar na IA.

Lista curta para guardar:

  • Sem nome, sem BI, sem escola, sem morada.
  • Idade em vez de data de nascimento.
  • Fotos só da zona, sem cara nem documentos.
  • Treino desligado nas definições.
  • Numa app: consentimento, fornecedor, o que é retirado, apagar, exportar.

Fontes

  1. Ethics and governance of artificial intelligence for health — OMS
  2. WHO issues first global report on AI in health and six guiding principles for its design and use — OMS
  3. Guidance on AI and children (versão 3.0) — UNICEF Innocenti
  4. Gemini Apps Privacy Hub — Google
  5. Is my data used for model training? — Anthropic
  6. Governo aprova lei para travar uso indevido de dados pessoais — Evidências
  7. Direito Digital na ordem jurídica moçambicana (IV): direito da protecção de dados — O País

Este artigo é informação geral, escrita pela equipa da Iasora a partir das fontes acima. Não substitui a consulta, nem o juízo de um profissional de saúde que vê a criança. Na dúvida, vá à unidade sanitária mais próxima.